CV Europass: quando usar e quando evitar

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Acabou uma formação e o formador disse a frase que toda a gente ouve pelo menos uma vez: "faça o CV em Europass". Passou uma noite a preencher campos, saiu um PDF de quatro páginas com uma coluna esquerda cheia de etiquetas, e depois enviou esse mesmo ficheiro para tudo. Para um procedimento concursal numa câmara municipal, para uma candidatura a um programa de mobilidade e para uma empresa de software em Lisboa que procurava alguém de marketing. Um desses três destinos era o certo. Nos outros dois, o formato trabalhou contra si.

Tudo o que encontra escrito sobre o Europass é positivo, e percebe-se porquê. Quem escreve é a própria Comissão Europeia, ou sites que vendem modelos Europass. Ninguém tem interesse em dizer a parte incómoda: o Europass é um documento institucional muito bom e um mau CV comercial. Não é questão de gosto gráfico, é questão de para onde vai o ficheiro. Este artigo separa as duas coisas: onde o formato é mesmo esperado em Portugal, onde não serve de nada, e o que muda quando se candidata a partir do Brasil.

O Europass não é um modelo de CV, é um conjunto de documentos

A primeira confusão é de âmbito. Quando se diz Europass, quase toda a gente pensa no CV. Mas o Europass é um quadro europeu com cinco peças, e só uma delas é escrita por si.

Repare no padrão. Quatro dos cinco documentos são emitidos por uma entidade e servem para provar algo a quem não conhece o seu sistema de ensino. O quadro comum existe exatamente para isso, hoje ao abrigo da Decisão (UE) 2018/646, e o objetivo declarado é a transparência e a comparabilidade entre países. Não é ajudá-lo a ganhar uma vaga contra dezenas de outros candidatos. Percebido isto, o resto do artigo decide-se quase sozinho.

Onde o Europass é mesmo esperado em Portugal

Aqui está a diferença que ninguém explica a quem chega de fora: em Portugal o Europass tem peso institucional real. Não é um formato entre outros, é o formato de referência de um conjunto concreto de entidades. Nestes casos, usá-lo não é uma escolha estética, é cumprir o que foi pedido.

Tip: Antes de decidir o formato, releia o aviso à procura de duas palavras: "Europass" e "formulário". Não são a mesma coisa e confundi-las custa candidaturas. O formulário, quando existe, é de entrega obrigatória. O Europass, quando aparece como "preferencialmente", é uma preferência declarada que quase nada custa satisfazer.

A exceção que quase todos os artigos erram: as instituições europeias

Circula por aí a ideia de que, para trabalhar na União Europeia, se envia um CV Europass. É falso, e é um erro caro. Os concursos para funcionários e os procedimentos para agentes contratuais das instituições europeias correm pelo EPSO, o Serviço Europeu de Seleção do Pessoal, e a candidatura faz-se numa conta própria, com um formulário estruturado. Não se anexa um PDF de CV: preenche-se campo a campo, e é esse questionário que é avaliado.

Onde o Europass aparece mesmo neste universo é noutro sítio: em avisos de agências europeias descentralizadas, em candidaturas a bolsas e a bases de peritos e em projetos financiados, onde o aviso diz de forma explícita que o CV deve ser apresentado em formato Europass. A regra continua a mesma: procure a palavra no aviso, não presuma.

Onde o Europass joga contra si

Agora a parte que os sites de modelos não escrevem. Numa candidatura privada, no Net-Empregos, no LinkedIn, no ITJobs, no Landing.jobs ou por e-mail direto a uma empresa, o Europass é quase sempre a pior escolha disponível. E a razão não é o formato ser feio, é ter sido desenhado para o objetivo oposto ao seu.

O Europass existe para tornar as pessoas comparáveis. Uma candidatura ao privado quer o contrário: quer que o leitor se lembre de si e perceba depressa que resolve um problema que ele tem hoje. Ao adotar uma estrutura que qualquer outro candidato também pode adotar, entrega ao recrutador vários documentos com o mesmo aspeto e nenhuma pista para os distinguir.

É justo dizer que a crítica mais repetida, a das tabelas azuis de bordas grossas, já é sobre um modelo antigo em .doc que continua a circular em pens USB e em sites de terceiros, e não é o que a plataforma atual produz. O editor de hoje deixa escolher modelo e cor e esconder secções vazias, e o resultado é mais sóbrio do que a fama sugere. O problema estrutural, esse, não desapareceu.

O que o formato faz ao seu conteúdo

Em Portugal pesa, no Brasil não existe

Esta é a diferença que apanha muita gente de surpresa depois de atravessar o Atlântico, nos dois sentidos. No Brasil, o Europass não tem peso nenhum. Não há instituição brasileira que o emita, que o reconheça ou que o exija, e nenhuma vaga na Gupy, na Catho, no InfoJobs ou no Vagas o pede pelo nome. Um recrutador brasileiro que receba um vai achar o documento estranho e comprido.

O mais próximo de um currículo institucional padronizado no Brasil é a Plataforma Lattes do CNPq, e o território dela é o académico, não o mercado. Enviar Lattes para uma vaga privada em São Paulo é o mesmo erro que enviar Europass para uma vaga privada em Lisboa: documento institucional correto, contexto errado. Note ainda que também no meio académico português o Europass deixou de ser o padrão, porque bolsas e concursos de investigação pedem cada vez mais o CIÊNCIAVITAE.

Para quem se candidata a partir do Brasil a vagas em Portugal, a consequência é simples. Numa vaga privada, não ganha nada em usar Europass, e ganha muito em reescrever o CV em português europeu, com cidade e país no cabeçalho e uma linha sobre disponibilidade. Num concurso público, numa bolsa ou num programa de formação financiada, aí o Europass é a escolha certa e vale a pena tê-lo pronto.

A regra de decisão, em quatro perguntas

Tip: O Europass é gratuito, sempre. Gera-se em europa.eu/europass com uma conta EU Login e a exportação em PDF não custa nada. Qualquer site que lhe cobre por um "modelo Europass" está a vender-lhe uma imitação de um documento oficial que faz de borla, e a imitação costuma nem ter a estrutura que a entidade espera receber.

Se tem mesmo de o usar, use-o bem

Cumprir o formato não obriga a entregar um documento fraco. A maior parte dos Europass maus é má por preguiça de preenchimento, não por culpa do modelo. Gere sempre na plataforma oficial e não num ficheiro antigo que alguém lhe passou, porque a estrutura mudou e um Europass de 2012 identifica-se à distância. Esconda as secções para as quais não tem conteúdo, em vez de as deixar com uma linha vaga lá dentro.

Escreva o campo de perfil como escreveria o resumo de um CV normal, com função, anos, setor e um resultado concreto. Nas experiências, resista a listar tarefas e escreva o que mudou por sua causa. E, mesmo em Europass, corte. Por fim, dê um nome decente ao ficheiro, do género CV_Europass_Ana_Ribeiro_Tecnica_Superior.pdf, porque em concursos públicos os anexos são arquivados por pessoas e um "documento1.pdf" perde-se.

O que vale a pena aproveitar quando não o usa

Há uma parte do Europass que é genuinamente melhor do que o que a maioria das pessoas faz sozinha, e que pode aproveitar em qualquer CV: a grelha de autoavaliação de línguas do Quadro Europeu Comum de Referência. Em vez de "inglês fluente", que cada leitor interpreta à sua maneira, indica um nível de A1 a C2 e, se quiser, separa compreensão, interação oral, produção oral e escrita. É preciso, é reconhecido em toda a Europa e não custa uma linha a mais.

Aproveite também a disciplina das datas, mês e ano em todas as entradas e sem buracos por explicar, e os suplementos como anexos. Um Suplemento ao Certificado ou um Europass Mobilidade juntos a uma candidatura explicam uma formação estrangeira melhor do que qualquer parágrafo seu, porque não são a sua palavra, são a de quem os emitiu.

A conclusão prática

O Europass é um formato de conformidade, não um formato de venda. Quando alguém o exige, cumprir custa-lhe uma hora e não cumprir pode custar-lhe a candidatura inteira, porque em concurso público o formalismo elimina antes de alguém avaliar o seu mérito. Quando ninguém o exige, usá-lo é escolher parecer igual a toda a gente no momento exato em que o seu objetivo é não parecer.

A saída não é escolher um lado. É ter dois ficheiros prontos: um Europass atualizado guardado na plataforma, para concursos, formação e projetos europeus, e um CV curto, seu, escrito à volta de resultados, para tudo o resto. Montar os dois é meia tarde de trabalho e resolve a pergunta para sempre.

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