Currículo com ChatGPT: onde ele erra em português
By Mustafa Tarabya, founder of CVBooster · Published · Updated
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Você colou a vaga no ChatGPT, pediu um currículo e em quarenta segundos apareceu algo melhor do que o que estava guardado desde 2021. O incômodo vem na releitura: metade daqueles números você nunca mediu, a seção de estudos se chama "Educação", e o texto está num português que ninguém escreve no Brasil nem em Portugal.
Este texto não é contra o modelo, é a favor de usar sabendo onde ele quebra. O ChatGPT foi treinado sobretudo em material em inglês, e é isso que devolve quando você pede em português: um resume americano com as palavras trocadas. Abaixo, os seis erros e o prompt que corrige cada um.
Antes dos erros: o que ele faz bem de verdade
O modelo destrava a página em branco e transforma "fiz relatórios mensais" numa frase que descreve entrega de verdade. Também funciona como leitor crítico: cole a vaga e o seu currículo e pergunte o que falta. O problema não é escrever. É que ele não sabe nada sobre você e quase nada sobre como se contrata em português.
Erro 1: ele preenche os números que você não tem
Este é o mais perigoso e o mais fácil de não perceber. Você escreve "atendi clientes e resolvi chamados" e o modelo devolve "reduzi o tempo médio de resposta em 32% e elevei a satisfação do cliente para 4,7". Não é má fé: ele aprendeu o padrão em currículos onde essa linha vinha com um número, e o padrão inclui o número. Se você não deu um, ele gera um plausível.
O custo aparece na entrevista, não na triagem. Um recrutador experiente pede exatamente isso: "me conta como você mediu esses 32%". Sem resposta, o dano não é ter errado uma pergunta, é a pessoa passar a duvidar de todas as outras linhas. A correção é uma instrução explícita: "Use apenas os dados do bloco abaixo. Quando faltar um número, escreva [FALTA NÚMERO] em vez de estimar."
Tip: Faça a leitura invertida: pegue cada número da saída e diga de onde ele veio. O que não der para rastrear até uma planilha ou uma meta real, apague. Uma frase verdadeira sem número vence uma frase precisa que você não sustenta.
Erro 2: a estrutura é americana com palavras em português
Olhe os nomes das seções. Quase sempre vem "Educação", tradução literal de Education, quando no Brasil e em Portugal a seção se chama Formação acadêmica. Vem "Resumo Executivo" no lugar de Resumo profissional, vem "Realizações Chave", que é Key Achievements passado por cima, e vem "Referências disponíveis mediante solicitação", convenção americana que nenhum recrutador daqui pediu. Nada disso está errado na gramática. Está fora da convenção local, e é o que faz um currículo parecer traduzido:
- "Educação" vira "Formação acadêmica", com técnico e superior juntos, do mais recente para o mais antigo.
- "Sumário" ou "Resumo Executivo" vira "Resumo profissional", em três a quatro linhas, sem adjetivo sobre a sua personalidade.
- "Realizações Chave" some: elas ficam dentro da experiência em que aconteceram.
- "Referências disponíveis mediante solicitação" sai inteira, porque ocupa espaço e não informa nada.
- "Objetivo" só entra se for o cargo da vaga, nunca como "busco uma oportunidade desafiadora".
- "Habilidades" fica, mas vira lista de ferramentas, não de adjetivos.
Erro 3: os cargos não são os que o mercado usa aqui
O modelo escreve "Analista de Marketing II" ou "Especialista Sênior de Operações Nível III". São traduções de escadas de senioridade americanas. O mercado brasileiro usa outra: auxiliar, assistente, analista júnior, pleno e sênior, especialista, coordenador, gerente, head, diretor. Ninguém aqui escreve "Nível II".
Há um motivo prático para não deixar o modelo inventar um cargo mais bonito. Ao admitir alguém, a empresa informa um código da Classificação Brasileira de Ocupações, a CBO, no evento de admissão do eSocial, e é desse registro que sai o cargo exibido na CTPS Digital. Se o currículo diz "Especialista de Growth Sênior" e a CTPS Digital diz "Assistente Administrativo", a divergência aparece na conferência de documentos. Em Portugal a lógica é equivalente, com a Classificação Portuguesa das Profissões do INE por trás dos registos de pessoal.
Cargo formal como está no documento, descrição embaixo explicando o escopo real. Prompt: "Mantenha os cargos exatamente como eu escrevi. Não traduza, não converta para níveis I, II ou III e não crie um título melhor."
Erro 4: ele entrega um documento, e a Gupy quer campos
Esta é a falha mais cara no Brasil, e o modelo não tem como saber dela sozinho. Você recebe algo pensado para ser lido inteiro por um humano: cabeçalho bonito, duas colunas, barra de competências. Só que na Gupy o arquivo que você sobe não é a peça final, é matéria-prima. A plataforma lê o arquivo e distribui o conteúdo em campos do perfil: cargo, empresa, datas, descrição, formação, habilidades. Quem concorre na vaga é o perfil preenchido, e um texto escrito para impressionar de corpo inteiro se despedaça aí.
A instrução que resolve é dizer ao modelo qual é o destino real da saída: "A saída vai ser copiada campo a campo num formulário com Cargo, Empresa, Data de início, Data de fim e Descrição. Devolva nesse formato, em uma coluna, sem tabela e sem ícone. A descrição de cada experiência deve ter de três a cinco linhas, cada linha com uma entrega."
Tip: Uma coluna, sem imagem e sem tabela é o que sobrevive à leitura automática, e ela nunca sai perfeita. Depois de subir o arquivo, abra Experiência e Habilidades e conserte campo a campo. É o perfil que entra na ordenação, não o PDF.
Erro 5: o português dele é traduzido
Aqui está o sinal que um recrutador percebe sem ferramenta nenhuma. Não é gramática, é registro. O modelo produz "sou apaixonado por tecnologia", que é passionate about ao pé da letra, e "profissional dinâmico e proativo com vasta experiência". Produz "aplicar para a vaga" quando em português se diz candidatar-se a uma vaga, e "aplicação" quando a palavra é candidatura. Começa metade dos bullets com "Responsável por". Repetido em dez currículos da mesma vaga, isso vira um padrão que quem lê reconhece na terceira linha.
Brasil ou Portugal: o modelo escolhe por você
Se você pede "um currículo em português", a saída vem quase sempre em português brasileiro, porque é o que domina o material de treino. Para quem se candidata em Portugal, pelo iefponline do IEFP ou direto a uma empresa, isso salta na primeira leitura. Peça português europeu e confira estas palavras:
- time vira equipa: "liderei um time de 5" vira "liderei uma equipa de 5".
- gerenciamento e gerenciar viram gestão e gerir, e usuário vira utilizador.
- planejamento vira planeamento, registro vira registo, treinamento vira formação.
- arquivo vira ficheiro e tela vira ecrã quando o contexto é informática.
- faturamento vira faturação ou volume de negócios, e os valores passam para euros.
- na ortografia, Portugal mantém contacto e facto com o c, e escreve receção onde o Brasil escreve recepção.
O prompt: "Escreva em português europeu, na norma do Acordo Ortográfico de 1990. Use equipa, gestão, utilizador, planeamento, formação. Não use time, gerenciamento, usuário, planejamento." Vale o inverso: quem mora em Portugal e se candidata a uma vaga brasileira pede português do Brasil de forma explícita.
Erro 6: ele manda você colocar CPF, RG e foto
Pergunte o que vai no cabeçalho de um currículo brasileiro e é comum o modelo sugerir endereço completo, CPF, RG, data de nascimento, estado civil e foto. Ele reproduz modelos antigos que circulam na internet, não a prática atual. Documento de identificação não tem função na candidatura, e a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, a Lei 13.709/2018, traz o princípio da necessidade: o tratamento se limita ao mínimo indispensável para a finalidade. Estado civil e idade são piores ainda, porque a Lei 9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias no acesso ao emprego por sexo, origem, raça, cor, estado civil, situação familiar, deficiência e idade. No cabeçalho basta nome, cidade, telefone, e-mail e LinkedIn.
Detectores de IA, e a pergunta se isso é permitido
Ferramentas como GPTZero e Originality.ai devolvem uma probabilidade, não uma prova. A própria OpenAI desativou o seu classificador de texto gerado por IA em julho de 2023, alegando baixa taxa de acerto, e um estudo publicado em 2023 na revista Patterns, por pesquisadores da Universidade de Stanford, mostrou que detectores populares marcavam textos de autores não nativos de inglês como gerados por máquina muito mais do que textos de nativos. Na prática o que acontece é mais banal: alguém lê vinte currículos seguidos e percebe, no décimo primeiro, que já viu aquela frase três vezes. Não é detecção, é repetição.
Não existe no Brasil nem em Portugal norma que proíba usar um modelo de linguagem para escrever o seu currículo. Se a vaga pedir transparência sobre o uso de IA, responda o que foi pedido. O problema é outro e antecede a IA: afirmar experiência que você não teve. Isso não é uso de IA, é informação falsa em processo seletivo.
O prompt que corrige os seis erros de uma vez
Junte tudo num bloco e cole antes dos seus dados. Ajuste a primeira linha conforme o país:
- Escreva em português do Brasil. (Ou: em português europeu, na norma do Acordo Ortográfico de 1990.)
- Use apenas os dados abaixo. Quando faltar um número, escreva [FALTA NÚMERO]. Não invente empresas, cargos, datas, ferramentas nem percentuais.
- Mantenha os cargos como eu escrevi, sem traduzir e sem converter para níveis I, II ou III.
- Seções: Resumo profissional, Experiência profissional, Formação acadêmica, Idiomas, Certificações.
- Não inclua Objetivo genérico, Referências, foto, CPF, RG, data de nascimento nem estado civil.
- A saída vai ser copiada campo a campo num formulário com Cargo, Empresa, Datas e Descrição. Uma coluna, sem tabela.
- Descrição em três a cinco linhas, uma entrega por linha, verbo no passado.
- Não use travessão longo. Use vírgula, dois pontos ou ponto final.
- Palavras proibidas: vasta experiência, apaixonado por, proativo, dinâmico, sinergia, alavancar.
- Não comece mais de uma frase com "Responsável por".
A saída vai ficar mais seca do que a primeira. É esse o objetivo: o currículo bonito demais é o que soa igual aos outros doze da mesma vaga.
O parágrafo que nenhum modelo escreve por você
A parte que decide a triagem é a que não dá para terceirizar: o contexto do seu trabalho. Quantas pessoas na equipe, o tamanho da operação, o que estava quebrado quando você chegou e o que ficou depois que saiu. Inverta o fluxo: antes de abrir o ChatGPT, escreva à mão, feio, dez linhas sobre cada emprego respondendo isso. Depois cole esse material bruto como fonte e peça que ele organize e encurte, sem acrescentar.
Checklist antes de enviar
- Pegue cada número da saída e diga de onde ele veio. Sem fonte, apague.
- Confira se os cargos batem com a CTPS Digital, ou com o contrato, no caso de Portugal.
- Renomeie "Educação" para "Formação acadêmica" e apague a linha de referências.
- Tire CPF, RG, data de nascimento, estado civil e foto do cabeçalho.
- Procure travessão longo, aspas curvas e "Além disso", e reescreva essas frases.
- Leia em voz alta. Onde você não falaria assim, reescreva.
- Confirme o país do português: equipa ou time, euro ou real.
- Na Gupy, revise Experiência e Habilidades campo a campo depois de subir o arquivo.
O ChatGPT erra em português porque foi treinado para escrever um resume americano e você pediu um currículo. Ele não sabe que a seção se chama Formação acadêmica, que a Gupy vai despedaçar o documento em campos, nem se você está no Porto ou em Belo Horizonte. Tudo isso ele acerta quando você diz.
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